• Andre Potugal Braga

A cultura de montanha, a escalada e a Lapinha…

A Escalada Esportiva na região da Lapinha de Lagoa Santa, ou como podemos chamar também de a escalada no Carste, começou nos anos 90, quando um grupo de jovens da grande bh passaram a ter contato com o esportes, na Serra do Cipó, a 50km da Gruta da Lapinha, trazido por cariocas, e através da espeleologia, onde descobriram na parte de trás da gruta um ambiente propício para o desenvolvimento de um campo escola em uma área próxima a capital e de fácil acesso. A geografia privilegiada nos presenteou com um calcário cárstico que desde então vem possibilitando escaladas incríveis e um constante desenvolvimento de novas áreas na região. Nomes importantes desta fase e que ainda estão na ativa são Eduardo Ralf, Emerson Azeredo, Rodrigo Tinoco, Roberto Licon,Eustáquio, Leonardo Hoffman André Coutinho, Edgardo Abreu, entre outros.


Ermesom Azeredo no maciço Lapinha

Nesta primeira fase o desenvolvimento se deu constante, com a abertura das principais vias acompanhando o desenvolvimento técnico daquele grupo pioneiro. Nota- se a evolução na técnica de cada atleta e do coletivo, a cada conquista. Nomes de vias clássicas como mentalidade suburbana, Império contra a ataca, Bigode Sujo, Karren Glass, (a primeira via da lapinha), perigo veio do céu (pvc), são deste período e através deles a cultura e a memória do esporte foram se consolidando no estado e na região. Cada nome remete a uma história e o associa diretamente ao realizador daquela obra, assim como à memória coletiva dos grupos culturais que as criam, usufruem, transformam-se e multiplicam-se.



“Se escalar é uma arte, então criatividade é seu componente principal.”

"If climbing is an art, then creativity is its main component."

— Wolfgang Güllich



Gullich, foi um destes personagens que surgem para elevar o patamar e estender as barreiras do impossível. Começou a escalar bem cedo aos quatorze anos já demonstrando aptidão natural. Logo se tornou o melhor escalador de sua região na Alemanha, e começou a estender suas fronteiras. Dedicou toda sua vida ao desenvolvimento da escalada livre “free climb” , o que acabou levando ao desenvolvimento da escalada esportiva e do free solo. Foi o responsável por criar graus até então inexistente subsequentemente durantes os anos de 1980 e 1990. Em 1991 foi a ascensão em Frankenjura, na alemanha do primeiro 5.14d , 11c do mundo a linha “Action direct” de apenas 12 metros que Gullich finalizou em 70 segundos, até hoje esta via é considerada duríssima por escaladores profissionais. Gullich para conseguir a força e o preparo necessário para a cadena de Action direct é considerado o inventor do campus board, hoje aparelho indispensável em qualquer academia ou centro de treinamento de escalada.


Sua contribuição para o desenvolvimento do esporte ao nível mundial é inestimável e ele foi responsável por abrir vias pioneiras em cada canto do mundo que contribuíram para a evolução dos escaladores locais. Como o caso de sua passagem pelo Rio de Janeiro em 1987, e a abertura da via “southern Confort”, o primeiro 10c brasileiro, conhecida e apelidada por todos de via do alemão, que foi durante muitos anos a via mais difícil da américa latina. Wolfgang Gullich, nascido em 1960 morreu prematuramente em um acidente de carro ao retornar de uma escalada em 1992, com apenas 32 anos.



Escalada esportiva no Brasil - os anos 90

Os anos noventa são considerados os anos dourados na escalada esportiva do brasil. Uma febre que se alastrou vindo do Rio de Janeiro, oito anos após a passagem do revolucionário Wolfangan Gullit pelas rochas cariocas. Foi quando começaram a surgir os primeiros décimos graus brasileiros assim como os atletas nacionais evoluíram ao ponto de encadena-las. É quando desenvolve-se o campo escola 2000, e a barrinha no rio de Janeiro e o incrível G3 da Serra do cipó - mg, com sua rocha calcárea metamorfizada. O mármore, uma rocha única, rara, especial, com grandes negativos, que possibilitou a abertura de vias de extrema dificuldade atlética e técnica e transformou nossa região na meca da escalada. esportiva brasileira.


Feitos marcantes deste período foram Luis claudio e o encadeamento da “via do alemão” (Southern Confort de Gullich) na pedra do urubu, o primeiro 10A do brasil, e a abertura da via “coquetel de energia” 10c por Pita e e Helmut Becker em 1996 no campo escola 2000, encadenada 2 anos depois, após longo período de treinos específicos, por Helmut Becker, esta era então a via esportiva mais difícil da América do Sul.


é possivel meninos - It goes boys


Em 1975 com então 16 anos a adolescente fez sua primeira viagem ao Yosemite Valley e foi apresentada aos escaladores que faziam do camp four sua casa. Lin foi logo acolhida e viveu de dentro o período que iria revolucionar a escalada mundial, aprendendo sobre a escalada limpa e livre e as novas técnicas e equipamentos que eram desenvolvidos e usados, pela primeira vez.



Hill entrou de cabeça naquele mundo até então predominantemente masculino e sexista. Naquela época ninguém acreditava que uma mulher poderia escalar melhor que um homem. Linn provou o contrário diversas vezes e mostrou que é possível ser ainda melhor. Em 1993, após encerrar sua carreira vitoriosa em competições internacionais ela retorna a escalada tradicional e ao yosemite Valley para assombrar o mundo se tornar o primeiro ser vivo do planeta terra, homem ou mulher, a escalar em livre toda a extensão da via “the nose” em yosemite Valley.


Com 900 metros em sua totalidade esta mítica via de 1958 conquistada pelo pioneiro Harren Harding com o uso de inúmeros pitons e técnicas artificiais, era até então considerada impossível de ser escalada em livre (com uso apenas da mão e dos pés). Ao concluir sua escalada ela sorridente declarou - “It goes boys” - “é possivel meninos.” Ainda hoje a via teve poucas repetições no estilo livre, apesar das tentativa de diversos escaladores renomados.


Enquanto isso em Minas…


Segundo Daflon no site companhia de escalada à Serra do Cipó ficou reservado o destaque da primeira ascensão feminina de um 9c , na via “heróis da resistência”, pela pela carioca Mônica Pranzl e pela paranaense Vanessa Valentim, na segunda metade dos anos 90. Esta escalada assim como outras ascensões femininas no período ,com grandes feitos em grandes paredes, como as escaladas em Yosemite e na Groenlândia por parte de Roberta Nunes, marca definitivamente o fortalecimento da escalada feminina no brasil.

fatores causais, conexões e dinâmicas de dispersão da atividade.



Fernanda Rocha no Maciço Lapinha - foto:Gustavo Baxter

Inserido nesta geografia da escalada brasileira e neste contexto da cultura de montanha no mundo, está a Gruta da Lapinha, que começa a chamar a atenção dos pioneiros da escalada mineira ainda nos anos 80. c. Neste momento ainda não se registrava o uso de proteções fixas, característica da escalada esportiva que crescia no mundo.


A distância com relação a Belo Horizonte é um dos fatores de desenvolvimento e dispersão do esporte no Carste de Lagoa Santa, o que a tornava mais acessível. Isto, principalmente para escaladores mineiros que no início dos anos 90 conquistam as primeiras vias esportivas e vislumbram um potencial para o que se tornaria o primeiro e o maior campo escola* de escalada esportiva do estado. Conforme nos mostra o depoimento coletado pelo Geógrafo Diego lara em sua tese a geografia da escalada em Minas Gerais


Phil Lobo no maciço Lapinha - Foto:Luis Hibino


“A primeira via conquistada de fato no Maciço Lapinha, nos moldes da escalada esportiva emergente, ocorreu em 1993. A via foi conquistada por Eduardo Viana de Azevedo (conhecido popularmente como “Ralf”), Ricardo Jardim Leal e Rodrigo Tinoco França: “[...] eu convidei o Rodrigo Tinoco, que por sua vez convidou o Fabiano e o Ricardo Leal, pra gente fazer uma investida para realmente abrir as primeiras vias esportivas da Lapinha”45. Essa via foi batizada de Karren Glass e, o próprio nome marca a conexão com as atividades de espeleologia (MARIANO; MELO JÚNIOR, 2002).


Nos anos seguintes a evolução se deu constante, e foram abertas centenas de vias esportivas dos mais diversos graus de dificuldades, a escalada belo horizontina começava a se formar com força, e a gruta da lapinha exercia um papel fundamental. Uma área próxima e acessível para a prática em rocha a apenas um ônibus de distância.Neste mesmo período, começaram as conquistas da Gruta do Baú, à dez quilômetros da lapinha, com características semelhantes às da lapinha, com formação calcária e próxima a capital.



Eu, a escalada e a lapinha


Portugal Braga no maciçø Lapinha - Foto: Luis Hibino

Foi no final desta década que tive meu primeiro contato com este esporte que me fascinou e que hoje se tornou meu estilo de vida. Em 1998 , tinha por volta de 18 anos, havia retornado de um intercâmbio estudantil, e aos poucos me adaptava e tomava conhecimento da nova vida que me aguardava em belo horizonte. Era época importante, de vestibular, de crescer, decidir o que queria ser para o resto da minha vida! Parecia loucura e bem complexo...estudos, festas, dúvidas e muita endorfina.


Visitando um amigo recente, naquela época, que entrara em minha antiga escola enquanto de meu intercâmbio, as paredes de seu quarto eram tomadas por diversas fotos de montanhas e pessoas escalando em paredes escarpadas.Uma delas era de uma famosa foto de Wolfgang Gullich fazendo a pose “bandeira” em uma laca de algum pico nevado. Percebendo meu interesse e deslumbramento, Pedro Bidu, começou a me mostrar seus equipamentos: cordas, mosquetões, friends , nuts, e toda aquela tralha...Daquele dia em diante eu estava fisgado, aquilo para mim parecia então coisa de revista e muito distante. quando me disse que praticava na Lapinha e na Serra do Cipó, e que era bem perto de BH, não o deixei mais quieto até que me levasse para entender um pouco daquilo.


Eduardo Ralph no maciço Lapinha - Foto:Gustavo Baxter

Nos encontramos em um dia bem cedo, em frente ao guichê de informações da rodoviária de belo horizonte, de minha parte a expectativa era enorme. Fomos até o ponto, embarcamos no ônibus, e nem me lembro da viagem de tão rápido que já desembarcamos em frente à entrada da gruta. Enquanto todos os turistas se dirigiam para a gruta, nós pegamos um pequeno atalho, e através da gruta da macumba em alguns minutos estávamos em um área livre, sem transeuntes aglomerando - se em busca de seu ingresso. Um setor “autorizado” apenas aos mais ousados, aos exploradores do desconhecido…Me lembro bem deste dia como o dia em que fiz mais força na minha vida, e Karren Glass como a primeira via que escalei… Ao fim do dia já estávamos de volta em nossos apartamentos na região central da capital.


A escalada passou então a ser meu interesse central, e a lapinha era o campo de treinos ideal, onde era possível o famoso bate e volta sem deixar pistas. Era o treino dos dias de semana, para incursões mais distantes aos finais de semana. Quantos não foram os dias de aula que matei durante os meus primeiros anos de faculdade? Me lembro bem de que ao fim dos primeiros semestres do curso de jornalismo eu havia falhado em diversas matérias. Mas a evolução na escalada foi intensa….até o ano 2000 a região do carste de Lagoa santa, já contava com três áreas distintas para a escalada esportiva: a gruta da Lapinha, o Sitio do Rod e a Gruta do Baú...


A virada do milênio porém, trouxe retrocessos e uma onda de proibicionismo se instalou nos municípios e orgãos ambientais envolvidos, que com justificativas pouco plausíveis, demonstravam o absoluto desconhecimento sobre o tema, e a cultura esportiva em questão.


A escalada e a contracultura - Camp Four e o berço da escalada moderna



A escalada em rocha sempre foi uma manifestação da contracultura e do inconformismo. Nos últimos 80 anos o que ocorreu no camp four de yosemite Valley nos estados Unidos, iria causar impacto em todo o mundo do montanhismo. Um grupo de jovens se reuniam ao pé de enormes paredes de granito para se desafiarem contra a gravidade e lançaram as bases éticas, comportamentais, atléticas e estéticas da escalada em rocha a transformando para sempre. Lin hill que viveu intensamente este período, nos anos 70, 80 e 90 descreve a atmosfera da escalada durante estes anos como “algo feito por proscritos da sociedade, pessoas que não eram conformistas.” Era então a época de watergate, da guerra do vietnã do movimentos pela igualdade e de jovens propondo uma nova postura perante o mundo, era o tempo dos hippies.



Desde os anos 30 a área do camp four no Parque de Yosemite vem sendo o abrigo constantes dos escaladores e montanhista. Hoje é considerado o berço da escalada moderna no mundo. e desde sempre a gestão do Parque de Yosemite e os Rangers responsáveis pela fiscalização tentaram acabar com o acampamento. Escaladores eram descritos por autoridade como “vida mansa, catadores, e ladrões mesquinhos”, e tentativas de fechar o Camp Four ocorreram sucessivamente nos anos 70, 80 e 90 assim como tentativa de alterar seu nome histórico de Camp Four para Sunnyside. Foi somente em 1999 que uma mudança de posicionamento por parte do serviço do parque que passou a reconhecer o nome oficial como Camp Four e desde de 2003 todo o sítio do acampamento 4, em sua extensão é listado no registro nacional de lugares históricos do Estados Unidos e tem sua preservação garantida por lei.



e na lapinha??


O ano de 2001 traz um marco lamentável. Após mais de dez anos de atividades e dedicação por parte de uma comunidade de esportistas e amantes da natureza, anunciai-se com uma placa em grandes letras que esta comunidade naquele momento, em formação e ainda bem pequena, que preza a saúde e a dedicação à rocha não eram bem vindas.

Naquele momento ainda era possível se contar nos dedos o número de praticantes realmente envolvidos com o processo de desenvolvimento, e escaladores frequentes. A notícia caiu como uma bomba atômica na mente daqueles jovens idealistas, inconformistas, talvez alguns proscritos, mas todos apaixonados pela natureza, pelo esporte e pela região. Foi como uma desocupação violenta ou reintegração de posse.


acervo: Gustavo Baxter

A justificativa oficial era tão vaga quanto a exposta no documentário e as vias da lapinha de baia e weissman de 2015 e selecionada por diego lara em sua tese de mestrado a geografia da escalada em mina gerais. Trecho da entrevista com a porta-voz da Prefeitura Municipal de Lagoa Santa à época, arqueóloga e ex-Secretária Municipal Sra. Rosangela Albano:


... "uma das nossas tarefas e obrigações era a questão da fiscalização com todo o ambiente e na ocasião eu fazia a gestão direta da Gruta da Lapinha. Então desde essa época o nosso olhar está ali para a Gruta da Lapinha atentamente com a questão da preservação, furto de bromélias, quebra de espeleotemas, [...] Eram assim, grupos bem menores, escaladores já bastante qualificados na postura da preservação ambiental. [...] A questão do uso intensificou de tal forma que, a partir do ano 2000, 2001, a prefeitura começou a coibir. Não foi uma coisa assim, “que dormiu e se acordou” com o decreto na mão não, o Decreto foi a última coisa que o município tinha como lançar mão (BAÍA; WEISSMAN, 2010/2015).



Lembro de quando a notícia chegou ao meu conhecimento. Minha mente ainda juvenil, não conseguia entender como um esporte, saudável e em contato com a natureza poderia ser proibido pelo estado. Ainda mais levando em conta serem reconhecidos como “um grupo bastante qualificado ambientalmente”. Outras justificativas também foram surgindo já após a proibição, como por exemplo as do impacto ambiental levantadas por Mauricio Cravo na tese de diego lara


“Então a gente começou a ver que o boom da escalada, quantidade de pessoas, tinha um impacto sim, nas áreas de escalada. É claro que tem. Se a gente for hoje na Lapa do Seu Antão, [...] a gente vai ver que é uma área que está bastante impactada, talvez por uma falta de controle maior. E isso estava acontecendo na Lapinha, também já há algum tempo. A Lapinha era um pico de escalada, começou a ter uma frequência muito grande, os impactos começaram a ficar grandes também, não que o impacto seja na rocha, propriamente dito, mas o impacto é generalizado, pisoteio, aqueles pequenos ambientes de rocha eram bastante impactados, as vezes de uma forma definitiva, as trilhas que eram abertas, [...] mas até então, a área da Lapinha não era assim, uma área, vamos dizer, protegida, de fato” (MAURÍCIO CRAVO TEIXEIRA, 2016).


acervo:Gustavo Baxter

A grande questão neste momento talvez não tenha sido a proibição em si, mas a forma como foi feita. Sem debate algum com os envolvidos, sem buscar tomar conhecimento do que se tratava a atividade, sem a busca de alternativas. Sem mencionar os DEZ anos que ficou proibido. Foi um dano terrível para o desenvolvimento do esporte e da região uma vez que os praticantes tratados como marginais pelo poder público tiveram de buscar outras áreas para se desenvolverem. De fato ainda hoje tento encontrar dentros das atividade antrópicas desenvolvidas pelo homem na natureza, uma que tenha o impacto menor que o da escalada. Podemos listar algumas como exemplo: extração de espécies, monocultura, mineração, entre outras, todas escandalosamente mais impactantes, talvez o voo livre esteja no outro oposto assim como a escalada em rocha.


Emersom Azeredo no Maciço Lapinha - Foto: Gustavo Baxter

Ainda tenho em minha memória a fatídica reunião na Sete Cumes, uma mistura de bar e academia de escalada pioneira em Belo Horizonte, onde todos alí nervosos se sentindo ofendido e destratados começaram a organizar o que se tornaria a primeira associação de escaladores de Minas Gerais a AME, que iria até às últimas consequências do debate político para garantir o retorno da escalada no maciço da Lapinha quase dez anos depois.


Durante o período que o maciço da Lapinha ficou fechada, o esporte não deixou de crescer e procurou se organizar, se institucionalizar, buscar representatividade e novas áreas foram sendo descobertas e equipadas para a prática. O mercado também se abriu, e se aqueceu, com o surgimento das novas academias indoor, cada vez mais adeptos a escalada atraia. Foi somente em 2010 que as portas da parque estadual do sumidouro se abriu novamente aos escaladores, que nunca o haviam esquecido.


No momento em que aqui escrevo já se vão 9 anos desde que a placa foi retirada, o decreto foi revogado e a escalada voltou a ser praticada no maciço. São também 9 anos desde que me mudei para a região da lapinha. Venho acompanhando o desenvolvimento do sítio do Rod, com mais de 20 anos de prática ininterrupta, a lapa do antão, o baú que reabriu assim como a lapinha. O que pude observar é que apesar de, a princípio, haver o impacto do pisoteamento e do uso de trilhas, este impacto se estabiliza tornando possível inclusive o reflorestamento natural de algumas áreas, como ocorreu com o sítio do rod, ou até mesmo observar que ‘se agente for hoje na lapa do antão”..., verá que pouco mudou desde a abertura das primeiras vias, verá no sítio do rod que os pássaros maritacas, andorinhas e urubus continuam se reproduzindo em grande número.


Eduardo Ralph no Maciço Lapinha - Foto: Gustavo Baxter

E a lapinha,???


A lapinha tem um fluxo hoje bem pequeno de escaladores, nota-se que, em termos naturais e espeleológicos, não houve alteração nos últimos anos e que o impacto ambiental já não pode ser usado como justificativa para manter setores fechados. Das quatro áreas que temos nas proximidades a lapinha é a menos frequentada. A princípio por que manteve um preço de acesso inviável para o escalador e muito mais caro até mesmo que áreas particulares. após algum tempo, com ação de alguns escaladores engajados como diego Lara, que através de sua dedicação pessoal, e a publicação de sua tese, a geografia da escalada em minas, conseguiu- se reduzir para a metade o valor de acesso a área, porém ainda sendo a área de escalada mais cara da região.


Faço questão de trazer minha experiência e vivência pessoal sobre o tema, não para ficar remoendo erros ou acertos do passado, mas no sentido de iluminar o caminho que temos adiante, é preciso reconhecer que se hoje a economia do montanhismos não é tão pungente como em outras áreas próximas da região, é por que aqui houve uma forma de tratar o tema que não se atentou para a cultura mundial do montanhismo e para as possibilidades de desenvolvimento econômico, sustentável e de baixo impacto para a região.


Lagoa Santa forma hoje em dia um eixo de desenvolvimento do esporte e da cultura de montanha que engloba ainda os municípios de Pedro Leopoldo, Santana do Riacho (Serra do Cipó) e mais recentemente Sete Lagoas.


Fernanda Rocha no Maciçø Lapinha - Foto: Gustavo Baxter

Atualmente toda a região do Carste mineiro, vive um novo ensejo no desenvolvimento do esporte, todas as quatro áreas que temos mais próximas se encontram abertas e liberadas para prática. São elas Gruta do Baú, Lapa do Antão, Sítio do Rod e Gruta da Lapinha, todas no entorno do Parque Estadual do Sumidouro divididas entre os municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Há ainda no limite geológico do Carste Mineiro uma área de expansão vigorosa em Sete Lagoas, a Sinuosa, a apenas 40 kms daqui.


Cada uma dessas áreas precisam ser analisadas individualmente, mas apresentam algumas características em comum. Quatro delas estão em áreas particulares e apenas o Maciço Lapinha está dentro do Parque Estadual do Sumidouro. Em todas se estabeleceu um nível de gestão que vem mantendo o diálogo com os proprietários e também os cuidados de manutenção de trilhas e vias, regras de uso e conduta.


A Lapa do Seu Antão é a mais recente, tendo suas vias esportivas sido abertas a cerca de dez anos, e é mantida pelo Clube Montis. O Sitio do Rod é mantido aberto aos escaladores á mais de 20 anos, pela família proprietária. O maciço Lapinha e a gruta do baú tiveram suas atividades interrompidas mas já reabriram as portas aos escaladores a cerca de 10 anos. EM todas estas áreas é possível notar a regeneração da mata nativa, sendo o sítio do rod o mais expressivo, pois toda a mata em torno do maciço foi removida nas décadas de 80 e 90, e hoje se apresenta como um exuberante bosque de mata seca. O impacto mínimo da escalada pode ser observado somente ao olhar técnico ou muito atento, como no pisoteamento das trilhas e das bases de algumas vias. Importante ressaltar que este impacto se estabiliza logo após os primeiros anos de uso. Em todas as areas também se observa o adensamento da nidificação de aves como maritacas e andorinhas.


Escalada no Maciçø Lapinha - Foto Gustavo Baxter

Em 2019 o esporte não é mais visto como uma banalidade juvenil e marginal. Tanto no mundo como localmente a escalada vem sendo reconhecida e ganhando visibilidade. Foi neste ano que um filme de escalada Free Solo ganhou o Prêmio Oscar de melhor documentário do planeta, a escalada será esporte olímpico em Tóquio. POr aqui o mercado e a economia em torno do esporte também cresceu. Em Belo Horizonte existem cerca de 4 academias esportivas especializadas em escalada e inúmeras lojas entre elas megastores mundiais. POr aqui, na Lapinha, atualmente além das áreas abertas a região conta com 4 hospedagens especializadas em receber escaladores de todo o mundo, reconhecidos no meio como “abrigos” ou “refúgios”, localizadas nos dois municípios envolvidos.


No Parque Estadual do Sumidouro o PESU, gestor da área do Maciçø da Lapinha também vivemos uma nova era em que o diálogo e o entendimento entre os atores vêm se intensificando e melhorando a cada dia. Pela primeira vez estão envolvidos em torno do desenvolvimento sustentável a partir das práticas de mínimo impacto na natureza como a escalada, gestores dos dois municípios e gestores estaduais. O Festival Escalarte de 2018 foi o marco que culminou com a proposta de Lei Municipal de Incentivo aos esportes rupestres, que visa a criação de mecanismos de fomento ao esporte e que será encaminhada ao legislativo municipal durante a realização da 1ª ATM do Carste 2019.


ATM ou Abertura de Temporada de Montanha


ATM Minas 2019 - Acervo FEMEG

Como cultura global, considera -se que a escalada surge nos Alpes, com a conquista do Mont Blanc o teto da europa no final do século 19, daí o nome também usado em português de alpinismo. Já falamos da influência norte americana na cultura de montanha brasileira, mas a europa é o berço do montanhismos mundial, e de lá importamos a cultura de se celebrar a abertura da alta temporada de montanhismo e escalada . Primeiro foi no Rio de Janeiro e a ATM já está em sua 31ª edição. A celebração tropical marca a mudança da estação chuvosa para um clima mais seco e propício ao treinamento e expedições. Diferente da Europa que celebra o fim das nevascas.


2019 marca o fortalecimento da Federação mineira de Montanhismo (FEMENG) e é também o ano de realização da 2ª ATM Minas, com um grande evento na praça do Papa, em Belo Horizonte. Shows, palestras, stands, oficinas e muita celebração marcaram a data.


ATM MInas 2019 - Acervo Fememg

Movimento Onda de Calcário


Por aqui, no Carste, uma onda de calcário se forma forte, e vem forçando os limites do diálogo e do entendimento do esporte e suas implicações no desenvolvimento sustentável das comunidades envolvidas. Uma fagulha vem esquentando o debate e pela primeira vez vai acontecer a 1ª ATM do Carste 2019. Com o amplo apoio do do Parque Estadual do Sumidouro (IEF) e o envolvimento dos municípios envolvidos, órgãos e entidades representativas estarão juntos, mais uma vez debatendo e compreendendo as possibilidades do processo. Um dia cheio de atividades ao ar livre e escaladas educativas, na praça na entrada do parque e da Gruta da lapinha. Coroando este acontecimento, que pela primeira vez acontece dentro da área do Parque e em praça pública, a entrada para escalada no maciço Lapinha, foi liberada de taxa de acesso, por parte do Parque. E ainda, por parte dos municípios envolvidos, será encaminhada a câmara municipal, pelo poder executivo o projeto de lei de Incentivo aos Montanhismo e esportes rupestres. Trata-se de um projeto de lei de iniciativa popular que entre outros, cria mecanismos de suporte, apoio e incentivo às práticas da cultura do montanhismo e ainda reconhece oficialmente a atividade como patrimônio histórico material e imaterial da região.



No momento este é um breve panorama do cenário, a fogueira está acesa novamente, e esquente o frio matinal deste inverno que promete rigoroso. Muito ainda a ser feito e provável que em breve este artigo se torne absoleto e para terminar com alguns dados nada efêmeros, apresentados na tese A geografia da escalada em Minas Gerais pelo cientista da escalada mineira Diego Lara Em relação ao Parque do Sumidouro, e o maciço da Lapinha -


“podemos apresentar as seguintes informações: existem 13 setores de escalada. Destes, somente 7 estão abertos à prática da escalada. (Figura 6) Em trabalho de campo, com participação da AME, foram aferidas um total de 164 vias de escalada, sendo que destas, 84 estão abertas e funcionando.”



Artigo de ANdré POrtugal Braga

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