• Andre Potugal Braga

"História não sobe montanha". - Temporada Escalarte 2019

Relato: Portugal Braga

Fotos:Phil Lobo

dia nascendo no abrigo avançado do Baino - Serra do Caraça

18 anos depois de minha ultimas ascensão ao cume do Baiano, no Caraça, um ícone da escalada mineira com 600 metros de rocha, toda escalável em livre, resolvi que finalmente estava pronto novamente, para encarar esta escalada impressionante. Naquela època, minha "era dourada" na escalada, tinha 22 anos, nesta, completara 40, um dia antes de começarmos nossa aproximação à base. Nos encontramos no Espaço Escalarte, para a viagem de carro de cerca de 3 horas. A equipe era a do carste, Phil Lobo, neófito dedicado, pronto para sua primeira experiência intensa de montanha, e a Lenda do Carste Roberto Januária, veterano, conquistador de inúmeras vias no calcário do carste de Lagoa Santa.


Januaria liderando a cordada

A primeira frente de defesa da grande parede leste do Baiano é um trilha dura, dura, dura... cerca de quatro km em mata densa e subidas íngremes, onde nos dias de hoje, foram instaladas cordas de apoio nos pontos mais perigosos. apesar da pouca distância, a trilha é percorrida em 3 horas ou mais. 18 anos começaram a cobrar seu preço logo no inicio, e levei a expedição a ficar perdida por longos momentos, novas picadas e trilhas abertas em anos recentes, além da vaga distante memória, se provaram uma armadilha bem eficaz. Longas voltas tempo precioso perdido além de uma energia gasta no lugar errado. Chegamos ao ponto onde abastecemos toda a agua necessária e partimos para a parte mais difícil da trilha: ainda havia tempo de recuperarmos o atraso. Dormimos no abrigo. Logo cedo no dia seguinte partimos para a aproximação final e inicio da escalada. Mais uma perdida, uma trilha bem nova havia sido aberta por alguns escaladores gringos a cerca de uma semana...Subida longa toda feita a toa...gastamos energia e água preciosa...Quando finalmente chegamos a base a manhã já ia adiantada e percebemos que além do tempo a agua era pouca para tentarmos um ataque ao cume a tempo de descer na segurança da luz do dia...uma vez que não queríamos arriscar ficar perdidos na parede, e passar a noite expostos a temperaturas hipotérmicas.


Phil preparando o rapel e click de Januária

A decisão precisava ser tomada, e junto resolvemos que eu e Phil Lobo desceríamos até o ponto de água, abastecer o estoque hídrico e voltar até a base onde passaríamos a noite. Uma descida de uma hora e um retorno de duas com cerca de 10 kg em cada mochila. Roberto Januária por ser o mais veterano e ter ficado bem impressionado com a aproximação recebeu o privilegio e honra de passar o dia em recuperação. Piramba abaixo correndo leve, piramba a cima devagar e pesado. Chegamos novamente na base já se ía mais um dia, mas agora tínhamos bastante água e comida para uma bom ataque ao cume, no dia seguinte.


De minha parte, já havia gastado um bom estoque de energia, pernas bambas e joelho já começava a doer...Minha esperança era um boa noite de sono após uma bela macarronada. A macarronada fortificante até que rolou bonita, já a boa noite de sono foi puro pesadelo. Fui refém de um saco de dormir antigo e com o fecho quebrado que havia pegado emprestado sem me reter aos detalhes de funcionamento, e uma noite de muito vento beirando o grau 0. Resultado: em certo momento da noite meu saco de dormir chegou a sair voando e não conseguia reter nenhum calor corporal, sequer pude dormir por mais do que alguns minutos. Dia seguinte: o ataque.Levantei um pouco bambo, sentido a cabeça balançar, o sol começava a mudar as cores do céu...tentei me recuperar lentamente e mais uma vez me alimentar com uma bela tapioca com queijo, café e leite. O Físico e o mental na escalada é sempre uma equação constante e quanto mais complexa e perigosa a escalada mais os limites destes estados são forçados.



A primeira cordada era minha, mentalmente eu tinha esta responsabilidade e apesar do desgaste não queria arredar o pé. A experiência e a história haviam de me guiar por aquele maciço de quartzo. Fisicamente me sentia massacrado mas minha mente ousava negar os fatos. Na via Obra do acaso as primeiras três cordadas são as mais expostas e difíceis e podem determinar o sucesso do ataque ao cume. Ousei me preparar, entrei no lance e mantive a determinação inicial fui tranquilo até a primeira chapa bem alta, e ali já chegava ao primeiro crux da via, 6 sup no quartzo, bem diferente do que temos aqui no carste, a segunda proteção estava bem alí, mas um crux, complexo me derrotou em uma queda antes de conseguir costurar a segunda proteção da via.


phil iniciando o rapel

Naquele momento senti o baque do cansaço, da realidade do desgaste, físico real, e neste momento minha determinação mental se deteriorou em queda livre e todo poder que ainda restava se esvaiu em diálogos internos infrutíferos e sumidouros de poder. Era hora de entregar os pontos e aceitar que o desgaste físico gerado por uma aproximação conturbada e errática havia me esgotado completamente. Foi então que ressurgiu Robertão, revigorado pelo descanso da véspera e empolgado com os testes de sua sapatilha nas aderências da base. "Deixa comigo Leão"! Exclamou da base. Eu derrotado descia pela corda já refletindo sobre a lição que estava recebendo, passei a ponta da corda para este grande parceiro, que com experiência e malandragem old school consegui levar a expedição à P1, superando toda a exposição ao risco da primeira enfiada.


Portugal Braba com o dia nascendo

Deitei, me alonguei, meditei, tentei me alimentar mais um pouco e me hidratar, mas uma insolação já me assombrava e sentia que meu corpo beirava o colapso, ainda "jumariei" até a P1, mas minha mente estava bamba e abalada. Quando Phil Lobo se preparava para a segunda enfiada resolvi descer para não aumentar o tempo de deslocamento na parede e dar mais tempo para uma tentativa em dupla de chegar o mais longe que conseguissem. Phil mandou a segunda enfiada com maestria e chegara ao crux mais difícil da via o 7b em livre mas que pode ser feito em artificial. Roberto reassumiu e ponta da corda passou o lance mais difícil em artificial com agilidade e maestria, quando percebera que não levara costuras para continuar a enfiada completa até a p3. Descendo para o abrigo pude acompanhar quando ele teve de descer até a parada onde Phil se encarregou de completar a enfiada. Eu resolvera voltar ao abrigo onde a algum conforto e refugio do sol e do vento para me recuperar. Foi um dia longo e tedioso para mim. de muita reflexão solitária e pessoal, ainda acompanhei uma coral atravessar nosso acampamento rangendo seu veneno. Ao anoitecer a dupla Phil e Roberto chegaram ao abrigo contado o desfecho da aventura e a chegada à P3. Fim da Segunda parte.


A última noite -


Cozinhado na base da via Obra do Acaso

A última noite se anunciava um pesadelo, apesar de estarmos no "abrigo", um bloco de pedra que protege do vento por um dos lados, a minha carência de equipamentos estava pagando seu preço. A temperatura caíra nas ultimas noites desde que chegamos e o saco de dormir defeituoso me fazia engolir a raiva a seco. Durante o dia, como tivera bastante tempo livre apesar de cansado foquei em melhorar o local onde botaria meu isolante e também em algumas reflexões. é incrível como a montanha pode trazer uma enorme solidão, como pode ser acolhedora e ao mesmo tempo te cobrar provas constantes de amor, te expelir e depois de acolher em seu ventre, como a mãe acolhe o filho, ou como a tempestade afasta o sol. Tentei me ajeitar por entre as pedras e da melhor maneira me cobrir travando as pontas do saco de dormir embaixo de meu corpo. Mas este procedimento limitava qualquer movimento que fizesse. Se tentasse desviar de alguma ponta de pedra que apertasse certa costela, perdia todo o calor corporal que se despedia em rajadas de vento pela terceira noite consecutiva flamejando meu saco de dormir. Fui acometido por uma crescente dor de cabeça, tremedeira e tosse constante. O experiente Roberto, logo percebendo meu aperto sacou - me alguns comprimidos dizendo serem para dor. Nem soube como agradecer e tomei sem exitar, enquanto tentava me arrumar novamente tive a brilhante e quase tardia ideia de colocar pelo menos as pernas dentro da mochila que esvaziei rapidamente e chegou a altura do joelho. A solução encontrada fez com que o calor se concentrasse melhor e o flamejar do saco de dormir diminuir. Aliados ao passe de mágica químico, diretamente da cartola do Januaria, que fez passar a dor de cabeça e a tosse constante, consegui dormir um pouco aquela noite.



Reflexões finais: na manhã seguinte o sol resolveu não aparecer e a mudança do clima se completara. Totalmente nublado o Baiano resolvera nem se despedir e se escondera por entre brumas densa de nuvens cinzas. O caminho agora era morro abaixo. Todos cansados começaram a arrumar suas mochilas e aos poucos as reflexões e diálogos sobre a nossa empreitada foram surgindo. "é meu amigo, agora agente viu que historia não sobe montanha,!!: exclamou o espirituoso Roberto Januária, e prosseguiu...."escalar aqui não é brincadeira, muito treino comprometimento, planejamento, e bons equipamentos."


Robertão em momento reflexivo

Já se vão uma semana desde que estou de volta ao Escalarte - Gruta da Lapinha, mas as reflexões iniciadas na expedição ao baiano ainda continuam vivas em minha menta e me despertam diariamente. Neste sentido resolvo traçar tortas linhas de memória recente para apreender a lição, para preservar do tempo e do esquecimento. Dizem os sábios que é na derrota que se encontra o verdadeiro conhecimento, é nela que está o maior valor de aprendizagem. Onde é possível avaliar os erros, rever conceitos e aprimorar-se enquanto indivíduo. Ela, a montanha, não fala em palavras ou idioma comum. É preciso apurar os sentidos, abrir os poros da sensibilidade, compreender sua linguagem e aceitar suas verdades. Ela não permite erros, queixas, choros, ou reclamações. Poucos são os que conseguem decifra-la.



Naquela manhã de domingo caminhamos rapidamente até o refugio do Caverna em Morro d'agua quente onde havíamos deixado o carro. Escalador importante e Pioneiro na região, Caverna é profundo conhecedor dos ensinamentos da montanha e foi bom reve-lo após tantos anos e poder compartilhar com ele e mais alguns escaladores que estavam por lá, em primeira mão nossa recente experiencia. Retornamos a base no Espaço Escalarte em três hora de viagem...massacrados porém mais fortes...






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