• Philippe Lobo

O Homem, a criança, o herói

Atualizado: 24 de Mai de 2019

Homenagem a Leandro Iannotta

in memoriam


Por Philippe Lobo


A morte é o extremo, o ápice, o cume de nossa experiência na Terra. É nesse instante de ruptura derradeira que toda nossa vida é condensada e arrebatada para o passado do mundo. E como tememos a morte! Temos um medo profundo e inconsciente que é compartilhado com todo o reino animal. Daí a cisma do gato ao beber água. Possuímos mecanismos naturais de instinto para tentar afastar a possibilidade da morte.

Mas, sendo a morte uma certeza natural da vida, poderia a vida se limitar a evitá-la? O limite entre “viver com medo da morte” e “não viver por medo da morte” pode mesmo ser muito tênue!

Como Ghandi, Lennon também levou um tiro a queima roupa, mas aos 40.

Para Marielle: fuzis.

O que houve com o avião de Teori Zavascki?

Centenas em Brumadinho nem souberam o que os atingiu.

Senna liderava com um F1 incontrolável a mais de 300 Km/h!

Fábio Muniz foi atingido por um carro quando pedalava em Botafogo.

Leandro e Fabrício escalavam o Fitz Roy.

Sim, a montanha é o sepulcro de muitos homens e mulheres. Mas, olhando atentamente as fatalidades do mundo, temos de admitir: são poucos os que deixam a vida com o ímpeto que ela merece. Quantos não se perdem na busca por status, no consumo, na disputa de egos ou no medo do desconhecido? Há os que se sentam na almofada (des)confortável do escritório incapazes de se olhar no espelho e ver com franqueza que seu pretenso sucesso de homem pode ser o fracasso da criança de outrora. Como é fácil acovardarmo-nos na guerra pelo conforto e esquecermo-nos do verdadeiro motor de nossas almas pulsantes!

Quando um amigo morre, a morte nos mostra sua face indiferente. Ela recolhe o amigo e simplesmente vai. Sem explicações. Diante da morte dos outros, somos confrontados com nosso medo, tomados pelo luto, pela ausência e pelo silêncio.

Hoje quebro meu silêncio, desfaço meu luto e vos trago estas pobres palavras em homenagem a Leandro Iannotta. Homem sim, mortal como todos nós. Mas criança, na medida em que seu olhar trazia, a quem quer que fitasse, pureza, verdade e paixão.

Leandro Iannotta foi, sem dúvida, um dos escaladores mais brilhantes que Minas Gerais já teve. Se engajou em várias lutas pela defesa das montanhas e pelo desenvolvimento da escalada. Por onde passava deixou uma marca profunda de afeto, força e compaixão. A intensidade de seu olhar nos estimulava a expressar nosso melhor e a vibração de sua voz nos contagiava com um impulso de vitalidade e liberdade.

“_ Vamoooo!”

A Expedição à El Chaten, na virada do ano, foi uma realização audaciosa. Os recursos materiais eram modestos. Recebera apoio dos que acreditavam em sua força, sua virtude e queriam ver realizada a sua escalada. Mais que uma montanha, ele escalava a própria vida. Oferecia a mão ao próximo e o coração ao mundo. Ainda que o mundo parecesse, por vezes, não merecer.

Porque morremos? Pergunta ociosa!

Perguntamos agora: Pelo que vivemos?

Quase tudo que se faz no mundo é justificado pela produção utilitária de bens, produtos, serviços e pela obtenção de recompensas materiais. Daí a dificuldade em reconhecer um sentido claro na escalada de uma grande montanha fria e inóspita. Sobretudo, quando não há recompensas materiais. Por quê? Ecoam os microfones!

Não vamos exigir uma visão clara da essência da vida. Não esperamos que o mundo seja justo ou compreensivo com as mazelas pessoais de cada um. Não iremos aqui defender a memória de um homem mortal que, como todos os outros, tem a imperfeição inerente. Lembramos aqui o homem que em sua vida soube, tantas vezes, representar o que há de melhor no homem.

E o que vem a ser o herói, se não isto: Um símbolo da virtude, da força e da compaixão?

Sua herança é maior que a riqueza e o status dos que jazem em macias almofadas.

Não importa o cume do Fitz. Teu cume era outro!

Não importam os tabloides.

Não importam as estatuetas.

Tudo isso passa.

Que dobrem os sinos de Aldebaran!

Leandro Iannotta, nosso querido Mister Bean:

Sangue de homem, Olhos de criança, Coração de Herói!


revisão: Raphael Lobo

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